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segunda-feira, 25 de novembro de 2013

SUPERPOPULAÇÃO

"É preciso limitar o número de pessoas nas futuras gerações", diz escritor Alan Weisman

REINALDO JOSÉ LOPES
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA



 

No mundo inteiro, cada vez mais mulheres têm menos filhos -o suficiente para que, em algum momento até o fim deste século, a população do planeta alcance seu auge e comece a decrescer pela primeira vez na história. Mesmo assim, o escritor americano Alan Weisman acha que não há motivo para complacência em relação aos riscos da superpopulação.

Weisman, 66, está virando um especialista em examinar os efeitos da ação dos bilhões de seres humanos vivos hoje sobre o planeta. Seu best-seller "O Mundo sem Nós", de 2007, é um experimento mental sobre o que aconteceria com a Terra se o Homo sapiens deixasse de existir da noite para o dia.

Recentemente, ele lançou "Countdown: Our Last, Best Hope for a Future on Earth?" ("Contagem Regressiva: Nossa Última e Melhor Esperança para um Futuro na Terra?"), que imagina uma solução menos draconiana para os problemas ambientais e políticos do mundo: um esforço consciente para que todas as famílias do mundo tenham acesso a métodos anticoncepcionais seguros e baratos, o que garantiria uma população máxima de 9 bilhões de pessoas em 2100.

Folha - Depois de escrever dois livros sobre como seria bom haver menos gente no mundo, o senhor já chegou a ser acusado de ser um misantropo?

Alan Weisman - Eu amo a minha espécie e não acho que estejamos prontos para a extinção. O que fiz no meu livro anterior (O Mundo sem nós) foi retirar os seres humanos do quadro de maneira teórica, para mostrar o tamanho da pressão diária que exercemos sobre o planeta e pensar "bem, e agora, como fazemos para trazer as pessoas de volta a esse quadro sem causar tanto estrago?".

Contudo, no epílogo do livro, tive de mencionar um fato perturbador: a cada quatro dias e meio, estamos trazendo mais 1 milhão de pessoas ao mundo, e isso não é algo sustentável. E é incrível como quase todo mundo entendeu isso muito bem e concordou comigo.

Mas embora todo mundo concorde com isso, as pessoas também são visceralmente contrárias a políticas draconianas como a política chinesa do filho único. Então minha proposta para o novo livro foi: será que há uma maneira de lidarmos com a explosão populacional de maneira que não seja tão dolorosa?

E cada vez ficou mais claro que essa é talvez a única coisa que realmente podemos fazer para diminuir nosso impacto ambiental. Com mais gente no mundo, nossas emissões de carbono vão continuar aumentando; vamos ter mais problemas com eventos climáticos extremos, como os que acabaram de devastar as Filipinas; os níveis dos mares estão aumentando e, mais do que isso, estão alterando a própria química dos oceanos, da qual toda a vida na Terra depende. São coisas perigosíssimas.

Mesmo que fontes abundantes de energia limpa, com emissões de carbono próximas do zero, sejam descobertas -o que é um bocado improvável-, simplesmente não há como aumentar a quantidade de terra disponível para produzir alimentos para toda essa gente -então, a coisa lógica a fazer é limitar o número de pessoas nas próximas duas ou três gerações.

Um elemento interessante do livro é que, fora exceções como as Filipinas, a religião parece não ser a grande barreira antiplanejamento familiar.

Sim, você tem razão. Entrevistei muitos líderes religiosos para o livro, e poucos realmente se opõem a essa necessidade. Todo mundo costuma pensar no catolicismo ou no islamismo como os principais inimigos do planejamento familiar, mas se esquece de que um dos programas mais bem-sucedidos do mundo nessa área foi idealizado por uma teocracia islâmica, o Irã.

As Filipinas são, de fato, uma exceção por conta do poder político da Igreja Católica por lá. Por outro lado, na Itália católica, as mulheres têm uma das taxas de fecundidade mais baixas do mundo [cerca de 1,4 filho por mulher], porque o nível educacional delas é muito elevado, e a educação feminina é o melhor anticoncepcional que existe ­­-em vez de ter sete filhos, a mulher decide terminar a faculdade antes de engravidar.

No livro, discuto o caso da Costa Rica, onde a Igreja Católica tentou pressionar os fiéis a não adotarem métodos anticoncepcionais e acabou perdendo espaço para igrejas evangélicas que incentivavam esses métodos como paternidade responsável.

O Brasil é uma história de sucesso, vocês já estão abaixo da taxa de reposição populacional [calculada como 2,1 filhos por mulher; abaixo disso, a tendência é a população decrescer].

Se não é a religião o principal fator por trás do crescimento populacional, o que é? Seria ligado ao fato de que, em alguns países, as pessoas ainda têm medo de não deixar descendentes por causa da alta mortalidade infantil?

São vários fatores, e um deles é o que você mencionou -em certos países da África, as pessoas continuam tendo filhos atrás de filhos porque muitos bebês acabam morrendo.

Mas ainda há, é claro, a mesma razão cultural pela qual, no livro do Gênesis, os israelitas seguem o mandamento "crescei e multiplicai-vos": se você tem uma família numerosa e poderosa, seus inimigos têm mais dificuldade de vencê-lo. E um dos jeitos de conseguir isso é a poligamia.

Esse tipo de mentalidade ainda é forte mundo afora.

Por outro lado, também no livro do Gênesis, há a história de José [um dos 12 filhos do patriarca israelita Jacó], que pode ser considerado o mais antigo ecologista.

Vivendo no Egito, ele observou os sinais de que a região estava prestes a passar por um ciclo de escassez e aconselhou o faraó e sua família israelita, dizendo que era hora de conservar, e não de continuar a se expandir. E foi graças a isso que José decidiu ter uma única esposa e apenas dois filhos, e ele conseguiu salvar todo mundo da fome que veio depois.

Nossa situação não é muito diferente, porque chegamos a um ponto em que será cada vez mais difícil produzir mais comida. Para cada 1ºC de aumento da temperatura do planeta daqui para a frente, é provável que a produtividade agrícola caia 10%, por exemplo. Continuar na trajetória de crescimento desenfreado é uma receita para o desastre.

Nos anos 1960 e 1970, o desenvolvimento de variedades agrícolas mais produtivas, a chamada Revolução Verde, afastou o fantasma da fome. Não é natural as pessoas esperarem que novos desenvolvimentos tecnológicos também resolvam o problema agora?

O que as pessoas têm de entender é que a Revolução Verde foi só uma solução temporária. Norman Borlaug, o pai da Revolução Verde, que ganhou o Prêmio Nobel da Paz por isso, usou seu discurso de aceitação do prêmio para chamar a atenção para o problema do crescimento demográfico.

Embora a Revolução Verde tenha evitado a fome, os tipos de plantio que ela preconiza não estão mais sendo suficientes em lugares como a Índia.

Uma das experiências mais terríveis que tive foi entrevistar as viúvas de fazendeiros indianos que se mataram bebendo pesticidas porque suas terras não têm mais água [as variedades agrícolas ligadas à Revolução Verde exigem irrigação], eles não conseguiam produzir e estavam endividados. Mais de 200 mil agricultores indianos se suicidaram.

O senhor também diz que é errada a ideia de que os poucos países com população em declínio, como o Japão, vão sofrer um colapso econômico. Por quê?

Por muitos anos, alguns economistas eram grandes fãs do crescimento populacional, simplesmente porque, com mais gente no mercado de trabalho, mais barata é a mão de obra.

Todo mundo se diz preocupado com o que vai acontecer com o Japão, com esse monte de gente idosa e tão pouca gente jovem para sustentar a aposentadoria deles. O que poucos percebem é que o processo é gradual e, ao longo de no máximo uma geração, conforme os mais idosos morrerem e os filhos dos jovens de hoje crescerem, você vai ter é um equilíbrio demográfico entre as duas parcelas da população de novo.

Com isso, você consegue fazer duas coisas: manter pessoas mais velhas na força de trabalho por mais tempo, e trazer mais mulheres com bom nível educacional para a força de trabalho.

Depois de pesquisar e escrever o livro, o senhor está mais ou menos otimista em relação aos desafios do crescimento populacional?

Estou mais otimista do que me sentia quando comecei a escrever o livro. É difícil para as pessoas aceitarem que a população precisa começar a diminuir porque nós passamos por um século inteiro no qual a população humana quadruplicou.

Só que elas têm de perceber que essa situação é algo anormal, criada por avanços repentinos na tecnologia médica e na produção de alimentos para os quais não estávamos preparados.

A boa notícia é que há um tremendo impulso mundo afora em favor de famílias menores. O planeta está urbanizado, não precisamos mais de tantos braços para a lavoura.

Outra notícia boa é que não precisamos de nenhuma descoberta dramática -estamos falando de uma tecnologia da qual já dispomos, e que é muito barata.

Precisaríamos de apenas US$ 8 bilhões por ano para disponibilizar anticoncepcionais para todas as pessoas do planeta -isso é o que os EUA gastavam por mês no Iraque e no Afeganistão anos atrás.

sexta-feira, 30 de agosto de 2013

LONTRAS QUE SALVAM

Lontras recuperam ambiente marinho ameaçado por algas na Califórnia (EUA)
 
 

O retorno das lontras a um estuário (transição entre rio e mar) da Califórnia, nos Estados Unidos, ajudou a salvar o ecossistema da região de Elkhorn Slough. Até a chegada desse predador, o ambiente aquático estava ameaçado pelas algas, cuja proliferação na superfície da água bloqueia a chegada de luz ao fundo do mar, afetando a sobrevivência da vegetação marinha, habitat para peixes. Como se alimentam de caranguejos, as lontras diminuem a quantidade de predadores das lesmas-do-mar que passaram a comer mais algas marinhas - Ron Eby/AP
 
O retorno das lontras a um dos maiores estuários da Califórnia, no Oeste dos Estados Unidos, permitiu recuperar a vegetação marinha, que serve de habitat para os peixes e desempenha um papel essencial na proteção dos ecossistemas costeiros, afirmaram biólogos esta segunda-feira (26).
 
Estes cientistas, que estudaram durante várias décadas o declínio e a recuperação da vegetação marinha no Estuário de Eikhorn Slough, na região Norte da Califórnia, constataram que o aumento da população de lontras foi um fator chave para a recuperação do meio ambiente, informaram em estudo na revista da Academia de Ciências dos Estados Unidos, a PNAS.
 
A vegetação marinha está diminuindo em todo o mundo devido ao uso excessivo de fertilizantes e outros nutrientes provenientes da exploração agrícola e das áreas urbanas em águas costeiras, impulsionando o crescimento de algas, que impedem que a vegetação marinha receba luz do Sol.
 
Mas nas últimas décadas, a vegetação marinha de Elkhorn Slough voltou a crescer, explicaram estes biólogos, entre eles Brent Hughes, da Universidade da Califórnia em Santa Cruz, um dos principais autores deste trabalho.
 
Estes cientistas estudaram a reação provocada no estuário pelo retorno das lontras em 1984. Estes animais não têm impacto direto na vegetação marinha, mas ajudam a preservá-la, ao comer grandes quantidades de caranguejos.
 
Alimentando-se dos crustáceos, elas eliminam uma ameaça chave para as lesmas-do-mar. Por sua vez, as lesmas-do-mar comem algas e permitem que as plantas marinhas se mantenham saudáveis. Isto significa que a presença de um predador ajudou a salvar o ecossistema.
 
"Este estudo proporciona outro exemplo das fontes interações exercidas pelas lontras nas populações de caranguejo e os efeitos em cascata sobre o ecossistema pelos transtornos da cadeia alimentar", disse Tim Tinker, biólogo no Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS), um dos coautores do estudo.
 
"Esta pesquisa também nos lembra que os animais sem predador, que desaparecem em grande número no planeta, desempenham um papel importante no equilíbrio de muitos ecossistemas", acrescentou.
 
Fonte: AFP/UOL Ambiente

quinta-feira, 15 de agosto de 2013

OLINGUITO


Nova espécie de mamífero é descoberta nas florestas da América do Sul
     
DA "ASSOCIATED PRESS"

Pesquisadores anunciaram nesta quinta a rara descoberta de uma nova espécie de mamífero, chamado de 'olinguito'. O animal pertence ao mesmo grupo de cachorros, gatos e ursos.
Do tamanho de um guaxinim, o 'olinguito' vive nas árvores das florestas do Equador e Colômbia e tem hábitos noturnos, segundo a publicação da revista científica "ZooKeys". Pesquisadores do National Zoo de Washington esperavam encontrar a espécie há uma década.
 
FOTO: Mark Gurney/Associated Press
Olinguito vive em árvores das florestas do Equador e Colômbia

No entanto, segundo Kristofer Helgen, curador de mamíferos do zoológico americano, um exemplar da espécie vivia no museu sem que ninguém tivesse percebido até a catalogação da nova espécie. O animal, apelidado de Ringerl, viveu em diversos zoológicos nos Estados Unidos entre 1967 e 1976. O pesquisador explica que só depois descobriu-se que ele não tinha dificuldade de se entrosar com os outros exemplares. Ringerl simplesmente não era da mesma espécie.
 
Helgen chefiou a equipe que pesquisou a nova espécie na América do Sul em 2006. Após estudar esqueletos dos animais em museus, os pesquisadores encontraram o 'olinguito' em seu habitat natural.
 
Descobertas de novas espécies são comuns, mas elas geralmente incluem pequenos animais. Segundo os pesquisadores, uma descoberta genuinamente nova e significante como essa não acontecia há 35 anos.

 

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

AMBIENTALISTA MORTO

Ambientalista espanhol é morto a tiros no Rio de Janeiro 
 
Polícia relaciona sua morte com suas denúncias para proteger o meio ambiente
 
Juan Arias
EL PAÍS
 
O biólogo Gonzalo Alonso Hernandez, em uma cortesia de imagem de sua viúva.
 
O biólogo espanhol Gonzalo Alonso Hernandez, 48 anos, um proeminente ativista ambiental, foi encontrado morto na terça-feira, perto de sua casa em uma cachoeira no Parque Estadual Cunhambebe, no estado do Rio de Janeiro. Ele morava no país com sua esposa há 10 anos. Ele foi executado em sua casa e, em seguida, jogado nas águas de um lugar que, por anos, lutou contra os caçadores furtivos e incendiários que buscavam criar pastos para o gado. A polícia e sua viúva, Maria de Lourdes Pena Campos, relacionam o crime com suas insistentes denúncias e sugerem que ele pode ter sido torturado.
 
Os investigadores encontraram manchas de sangue na casa. A esposa de Gonzalo, que trabalha no Rio e retorna para sua casa nas montanhas no fim de semana, tinha ido para o trabalho.
 
Embora ainda não tenha dado uma versão oficial dos motivos para o assassinato, o Consulado do Rio, que está em contato com a polícia, não tem mais dúvidas de que foi um crime por sua luta contra crimes ambientais no parque natural de Cunhambebe.
 
 
Ele foi morto em casa, e jogado em uma cachoeira defendendo o parque
 
 
Sua esposa confirmou para o EL PAÍS que o marido "estava sempre em guerra com os caçadores, criadores de gado no parque e contra incêndios para abrir espaços para os agricultura". Gonzalo também se destacou por sua defesa de espécies de plantas e animais em perigo de extinção.
 
O biólogo foi transferido pela Telefónica para o Brasil, onde atuou como diretor no Rio de Janeiro da empresa de telefonia móvel Vivo. Em 2005, ele deixou o cargo para se dedicar exclusivamente ao trabalho ambiental. Ele trabalhou como voluntário na ONG Instituto Terra, que está ligada à CNT EUA.
 
A polícia confirmou que a casa do biólogo não tinha apenas o computador, provavelmente para apagar os traços de suas reivindicações na área ambiental. Seus assassinos também cortaram a linha telefônica e luz em sua casa.
 
A viúva destacou o fato de que o biólogo foi executado em sua casa e seu corpo foi jogado em uma cachoeira do parque cuja proteção tinha vindo a defender há oito anos. Ela afirmou que não tem dúvida de que o crime foi cometido por aqueles que foram tocados por suas queixas. "Ele nunca teve  inimigos, além daqueles que foram denunciados por suas ilegalidades contra a natureza", disse ainda muito afetada pela tragédia, mas com firmeza.

 
Pesquisadores acreditam que pode ter sido torturado
 
  
Gonzalo Alonso Hernandez nunca recebeu ameaças explícitas. O único fato anormal que Maria de Lourdes lembra é "que vi voar sobre a casa, um dia antes do assassinato, um helicóptero voando baixo, algo que nunca tinha acontecido antes". Naquele momento, eles não se importam.
 
Felipe Paranhos, da ONG Instituto Terra, que conhecia o ativista, disse que o biólogo também trabalhava com um projeto do governo do Rio de Janeiro para a proteção das águas do parque - muito importante do ponto de vista ambiental.
 
"Ajudou muito a todos nesta luta para proteger as fontes de água", disse Paranhos. Perguntado sobre o que ele achava das autoridades locais, explicou: "Gonzalo chegou com mentalidade europeia que tudo que é ilegal é para denunciar abertamente". Ele acrescentou: "E você sabe que no Brasil a mentalidade é diferente." Ele quis dizer que aqui você não pode desafiar abertamente, muitas vezes certos interesses protegidos por caciques locais.
 
Uma das principais razões pelas quais a polícia suspeita que o crime foi ordenado por aqueles que foram expostos pelo ecologista espanhol é o fato de que a única coisa que foi roubada de sua casa foi o computador. "Eles provavelmente fizeram isso para levar as informações coletadas pelo biólogo contra as ações ilegais no parque", disse o oficial de polícia, Marco Antonio Alves.
 
As autoridades brasileiras ainda não se pronunciou sobre o crime o tempo da imprensa. O Ministério das Relações Exteriores espanhol só confirmou sua morte.
 
 
Fonte: EL PAÍS
Tradução: Fernando José Pimentel Teixeira