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sábado, 21 de dezembro de 2013

CÓDIGO AMBIENTAL CATARINENSE


POR JOÃO DE DEUS MEDEIROS*


 
Deputados catarinenses acabam com a proteção que a lei federal confere aos Campos de Altitude. Segundo definição esquizofrênica do Código Ambiental Catarinense vegetação de campo de altitude só ocorre em áreas acima de 1500m. O campo da foto, por exemplo esta a 1430m, portanto não é Campo de Altitude. Para compreender as motivações segue a altitude dos nossos municípios mais altos: São Joaquim (1358); Urupema (1326); Bom Jardim da Serra (1248).


 
Unidades de Conservação no Código Ambiental Catarinense: Deputados esquecem que devem respeito a Constituição Federal e atropelam a lei do SNUC. Em Santa Catarina criar unidade de conservação só por lei. Faltou o artigo tirando o Estado da Federação. Lamentável.


 
No Principado de Santa Catarina agora criar vaca e porco em APP é atividade de interesse social. Pérolas aos porcos do Novo Código Ambiental de Santa Catarina.


 
Mensagem de Johann Friedrich Theodor Müller (Fritz Müller) que deveria ser lida pelos deputados catarinenses que votaram o Código Ambiental: "Porque o conceito de desenvolvimento não é o de crescer, mas o de progresso de um ainda não diferenciado, que contém o potencial para o de fato diferenciado".
 
 
*João de Deus Medeiros é ambientalista, possui graduação em pela Universidade Federal de Santa Catarina (1984), mestrado em Ciências Biológicas (Botânica) pela Universidade de São Paulo (1989) e doutorado em Ciências Biológicas (Botânica) pela Universidade de São Paulo (1993). Atualmente é Diretor do Departamento de Florestas do Ministério do Meio Ambiente e professor Associado da Universidade Federal de Santa Catarina. Tem experiência na área de Botânica, com ênfase em Anatomia Vegetal, atuando principalmente nos seguintes temas: mata atlântica, biodiversidade, anatomia, biotecnologia e impacto ambiental.
 

terça-feira, 6 de agosto de 2013

AMBIENTALISTAS NA MIRA

Caçador agride ambientalistas com arma de fogo
 
Silvia Marcuzzo
Caçador saindo de traz do palmiteiro com a arma apontada para Wigold. Foto: Wigold B. Schaffer.

“O que acontece, quando no meio da mata, por detrás dos arbustos, não é um bicho que aparece, mas sim um caçador camuflado e armado, que vem em sua direção com um rifle com mira telescópica apontado diretamente pra você? Pode acontecer um tiro de raspão na mão, por conta do reflexo de defesa da pessoa, mas pode acontecer o pior, que é o que via de regra acaba acontecendo, quando o alvo é um animal”.

Wigold B. Schaffer e Miriam Prochnow, Conselheiros da Associação de Preservação do Meio Ambiente e da Vida (Apremavi), formam vítimas de agressão e ficaram reféns sob a mira de arma de fogo e ameaça de morte por mais de 30 minutos, neste domingo dia 04/08/2013, quando faziam um passeio pela mata de sua propriedade em Atalanta/SC. Saíram de sua casa por volta das 10 horas em companhia de sua filha Gabriela para dar uma caminhada no meio da mata e fazer fotos da flora e fauna. A caminhada transcorria tranquíla e alegre com muitas fotos de pássaros até que, por volta das 10:30h em meio a uma pequena trilha foram atacados de surpresa por um caçador.

Wigold conta que o homem surgiu de repente, com vestimenta camuflada da cabeça aos pés, empunhando uma arma de fogo dessas que utilizam um “pente” de munição e mira telescópica. “Ao perceber algo se movimentando atrás de uns palmiteiros jovens inicialmente pensei tratar-se de algum animal e comecei a fotografar, segundos depois surge o caçador vindo em minha direção com o dedo no gatilho e a arma apontada diretamente para mim”, relata Wigold. Por instinto de fotógrafo, Wigold conta que continuou fotografando a aproximação do agressor e gritou por socorro, já que sua esposa Miriam e sua filha Gabriela vinham uns 50 metros atrás. “O agressor não parou, veio direto em minha direção com a arma apontada, até quase encostar o cano em meu rosto, aí ele tentou arrancar a câmera fotográfica de minhas mãos, nesse momento, num gesto de desespero e reflexo segurei o cano da arma e o desviei do meu corpo, foi quando ele puxou o gatilho e atirou, o tiro passou muito perto do meu peito” conta Wigold.

Após o disparo, Wigold conta que continuou segurando o cano da arma com as duas mãos enquanto o caçador tentava novamente virar o cano e apontar em sua direção, como não obteve êxito passou a agredir violentamente a vítima com chutes, coronhadas e até com a própria máquina fotográfica, que se partiu quando o agressor a bateu na cabeça da vítima.

As agressões foram interrompidas alguns minutos mais tarde com a chegada de Miriam, que estava um pouco atrás. “Ao ouvir o grito de socorro do Wigold e em seguida o disparo da arma, imediatamente pedi que a minha filha Gabriela corresse até em casa e chamasse a polícia, relatou Miriam. Ela também relata que ao chegar perto do local viu o Wigold deitado no chão e o homem batendo nele com a coronha da arma: “Enquanto me aproximava fui tirando fotos para registrar a agressão e ao mesmo tempo reconheci o agressor e o chamei pelo nome”. Ao perceber a aproximação da Miriam e ver que ela também estava registrando o que acontecia, o agressor parou de espancar o Wigold e passou agredir a Miriam na tentativa de também lhe tirar a câmera fotográfica.

Os 2 ambientalistas ficaram ainda por mais de 20 minutos sob a mira da arma do caçador, que sob ameaça queria lhes tirar as câmeras fotográficas. A situação só parou quando Miriam anunciou que a polícia já deveria estar chegando pois a Gabriela saíra em busca de socorro logo após o disparo da arma. Pouco depois, o homem se afastou caminhando de costas, sempre com a arma apontada em direção ao casal, até se embrenhar na mata.

Os ambientalistas Wigold e Miriam, nascidos na região do Alto Vale do Itajaí, tem destacada atuação em defesa da Mata Atlântica. O casal voltou para Atalanta depois de 14 anos trabalhando em Brasília. Wigold trabalhou por mais de 13 anos no Ministério do Meio Ambiente e Miriam fortaleceu a atuação da Apremavi em colegiados de âmbito nacional, como a Rede de ONGs da Mata Atlântica (RMA), onde foi Coordenadora Geral. Hoje é Secretária Executiva do Diálogo Florestal Brasileiro e conselheira do Diálogo Florestal Internacional. Os dois são fundadores da Apremavi, que completou 26 anos este ano.

A situação vivida pelos ambientalistas aponta na verdade para uma realidade ambiental grave no Alto Vale do Itajaí e outras regiões de Santa Catarina, que é a caça. A caça de animais nativos é proibida no Brasil, mas continua sendo praticada e com um agravante, ela está sendo praticada por jovens, com equipamentos cada vez mais sofisticados, que acabam não dando nenhuma chance de reação aos animais e também acabam provocando situações como a vivida no último domingo.

As vítimas já denunciaram as agressões junto às Polícias Civil, Militar e Ambiental, bem como ao Ministério Público Estadual e Federal. Nos próximos dias, a Apremavi, juntamente com outras instituições de Santa Catarina e do Brasil, estará deflagrando uma ampla campanha junto aos órgãos públicos para que estes realizem operações de fiscalização da caça, soltura de animais aprisionados e apreensão de armas na região.

Caçador agride Wigold, que está caído no chão.
Foto: Miriam Prochnow

Tentativa de negociação para que o caçador os deixasse ir embora, ambientalista com a mão ferida..
Foto: Miriam Prochnow 


Fonte: APREMAVI

 

segunda-feira, 8 de abril de 2013

JUDY McALLISTER

Faltam lideranças sustentáveis
 
Judy McAllister é escritora e especialista em sustentabilidade
 
 
por Lucas Toyama
 
Judy McAllister utiliza sua vasta experiência em assuntos relacionados à preservação do meio ambiente para afirmar categoricamente que o ser humano, a despeito de todo o blá-blá-blá que elaborou, ainda está muito aquém de fazer o que seria necessário para ser sustentável. Resultado disso é que as companhias, que “detêm um poder incrível para ditar tendências para a sociedade como um todo”, como ela mesma afirma, também fazem pouco, alimentando um círculo vicioso baseado na profusão de discurso e na carência de ações efetivas.
 
Canadense, ela se mudou em 1977 para a Escócia, quando se tornou membro da comunidade da Fundação Findhorn, da qual foi coordenadora geral por cinco anos. Lá, usou sua paixão por gente e natureza para estimular o desenvolvimento – pessoal e espiritual – dos membros da organização - uma comunidade, uma ecovila e um centro internacional de educação holística, cuja finalidade principal é despertar uma nova consciência no homem e criar um futuro mais positivo e sustentável.
 
Em recente passagem pelo Brasil, Judy conversou com o CanalRh e discorreu sobre suas visões em relação ao tema sustentabilidade, falou sobre a pouca atenção que o assunto ainda recebe e apontou um agente com grande força para reverter a situação: as empresas. Confira.
 
"A arrogância do homem em sua visão em relação à natureza é apavorante"
 
CanalRh - Quando despertou para a importância da preservação do planeta?
Judy McAllister: Eu sempre me interessei pela natureza. No final dos anos 70 visitei a Findhorn Foundation, da Escócia, e tomei consciência do instigante mundo natural. Daí foi um pulo para eu entender a condição do planeta e os efeitos das ações dos humanos sobre ele. Eu tenho tido oportunidade de viajar muito. Isso tem me permitido ver um extenso espectro dos mundos natural e humano, o que é bastante rico. Eu testemunhei o desaparecimento de habitats e vi criaturas magníficas em seus próprios ambientes. A escala e o escopo da degradação que nós humanos temos causado são assustadores para mim. A arrogância do homem em sua visão em relação à natureza é apavorante. Parece que a gente pensa que é isento das leis universais que regem o mundo natural. Mas nós não somos.
 
CanalRh - Por que veio ao Brasil?
Judy: Eu vim a primeira vez no final dos anos 90 para dar aulas num programa de treinamento de duas semanas. Eu me apaixonei pelas pessoas e pela natureza. Voltei em 2008 como assistente de Dorothy Maclean (escritora e educadora canadense e uma das fundadoras da Findhorn Foundation, na Escócia), quando ela veio lançar uma edição em português de um de seus livros. Desde então, voltei algumas vezes, por diversos motivos. Algumas de minhas atividades criaram raízes e se desenvolveram de forma que eu jamais poderia imaginar. Eu descobri que a vida tem formas de se revelar se eu simplesmente seguir os sinais. É bem isso o que acontece na minha relação com o Brasil.
 
"Acho que as companhias têm um papel vital. Elas detêm um poder incrível para ditar tendências para a sociedade"
 
CanalRh - Como funciona a Findhorn Foundation?
Judy: A Findhorn Foundation é uma instituição de caridade focada no trabalho educacional. Sua principal fonte de renda são workshops, seminários e conferências que acontecem o ano todo. Cerca de 125 pessoas de 40 países moram e trabalham na Fundação. Nós hospedamos, por ano, mais de 4 mil pessoas de aproximadamente 60 países, com milhares de outros visitantes que passam algumas horas ou dias com a gente. Ao redor da Fundação cresceu uma comunidade de pessoas que trabalham para si mesmas, em negócios pequenos e independentes. É um lugar inacreditavelmente diverso e dinâmico que está completando 50 anos.
 
CanalRh - Dinamismo, abundância de informação e desenvolvimento rápido da tecnologia são fatores que facilitam ou dificultam o pensamento sustentável?
Judy: As duas coisas. Esses fatores permitem que mais e mais pessoas se tornem conscientes da necessidade de ser sustentável em todos os níveis. A disponibilidade da informação e o fato de a tecnologia se tornar mais acessível tornam possível que pessoas vivam e trabalhem de maneira sustentável. Infelizmente, o exagero de informação leva a uma saturação que pode ser perigosa, sobretudo no que diz respeito ao excesso de possibilidades. Como a gente escolhe um caminho entre tantos? Para cada teoria há outra que a refuta de forma consistente. Como decidimos em quem acreditar? Isso tudo pode fazer com que as pessoas desistam e deleguem a questão para os “especialistas”.

CanalRh - Pegam um atalho mais fácil...
Judy: Muitas vezes, sim. Esse excesso de possibilidades leva as pessoas a fazerem escolhas mais confortáveis para elas e deixarem para trás outras tantas. No entanto, sustentabilidade é multidimensional. Ela envolve diversas áreas e precisa olhar para questões como comida, cultura, educação, trabalho, espiritualidade, recursos naturais, energia, gerenciamento de lixo, transporte, saúde, moradia. Não tem, portanto, como isolar um assunto.
 
CanalRh - Você acredita que as pessoas estão conscientes da importância de ser sustentável?
Judy: Não. As pessoas ainda não entenderam. Sustentabilidade se tornou uma palavra muito falada, mas pouco praticada. Ainda existe muita ignorância em relação à profundidade que o tema exige. Se as pessoas realmente têm acesso à informação, elas têm medo de agir ou negam a verdade de nossa coletividade, o que significa que a maioria prefere não enxergar a verdade das mudanças de clima, por exemplo, e dos níveis de crescimento não sustentáveis.
 
"O fato é simples: o planeta não é grande o suficiente para todos nós continuarmos vivendo da forma que vivemos"
 
 
CanalRh - Qual o principal erro das pessoas em relação à sustentabilidade?
Judy: Eu diria que são dois. O primeiro é o pensamento de que não podemos lidar com o assunto. O segundo é a ideia de que sustentabilidade, de alguma maneira, significa mudar para um estilo de vida que parece ser caduco. A gente peca em não entrar de vez no assunto. Sustentabilidade de fato significa uma simplificação de nosso estilo de vida – uma forma de viver com muito menos consumo, o que é bem diferente de viver com um padrão mais baixo. Hoje, muitas pessoas afirmam que querem a sustentabilidade, mas não querem, realmente, encarar as mudanças que ela exige. No mundo ocidental, torna-se muito desconfortável olhar para aquilo de que temos que abrir mão para ter uma vida sustentável. O fato é simples: o planeta não é grande o suficiente para todos nós continuarmos vivendo da forma que vivemos. Mas é grande o suficiente para todos nós, se vivermos de maneira mais inteligente, com mais consciência e menos desperdício.
 
CanalRh - Do que as pessoas precisam, afinal, para agir de maneira sustentável?
Judy: Comprometimento, dedicação e vontade de andar em direção a uma batida diferente da que se toca hoje. Isso exige o desejo de reduzir alguns excessos para se ter outros ganhos. Ser sustentável frequentemente pode ser mais caro e menos conveniente no curto prazo.
 
CanalRh - Por quê?
Judy: Porque exige mudanças e concessões.
 
CanalRh - O Brasil tem se tornado mais sustentável?
Judy: Não tenho muito conhecimento para afirmar, afinal não moro aqui. Todavia, eu tenho tido o privilégio de encontrar pessoas envolvidas com a questão da sustentabilidade e elas dizem que, se por um lado o País está fazendo progressos, por outro ele tem sido lento demais. Aqui você encontra recursos em abundância. As cores, a vibração, a diversidade e a autenticidade de muitas coisas que aqui se encontram me fazem rir e chorar. Eu imagino o potencial que o Brasil tem para tornar a sustentabilidade num conceito de larga escala. Os brasileiros poderiam ser os líderes em boas práticas e inovação – recursos para isso não faltam.
 
CanalRh - Quais as principais atribuições das empresas em questões ligadas à sustentabilidade?
Judy: Acho que as companhias têm um papel vital. Elas detêm um poder incrível para ditar tendências para a sociedade como um todo. Elas têm as estruturas e os recursos para promover mudanças e reeducar os corações e mentes que podem alimentar o comprometimento com a sustentabilidade.
 
CanalRh - Os projetos de sustentabilidade que muitas empresas criam são de fato funcionais ou ainda pertencem a uma esfera de marketing objetivando assegurar boas imagem e reputação?
Judy: Com o risco de me tornar impopular, eu acho que muitas iniciativas caem na segunda categoria. É claro que existem algumas companhias que estão genuinamente aprofundando a questão e fazendo mudanças que vão ao encontro da sustentabilidade. Ser sustentável exige que a gente olhe não apenas para algo específico, mas para um contexto. Se uma empresa fabrica produtos ou utiliza processos que são nocivos ao ar, à água ou ao solo, mas usa papel reciclado e tem um projeto de redução do consumo de energia, ela não é exatamente sustentável. Do outro lado da equação, há companhias que produzem produtos “eco-amigáveis” e que tampouco são sustentáveis. Nós precisamos olhar além dos produtos e avaliar suas cadeias de suprimentos e de distribuição, suas políticas de contratação e seus processos produtivos. Sustentabilidade não é simples, mas é essencial para o futuro do planeta.
 
CanalRh - Qual a importância das lideranças no mundo corporativo para pensamentos e ações sustentáveis?
Judy: Total. Se os líderes das empresas colocassem a sustentabilidade no maior senso de prioridade em seus planejamentos estratégicos, o progresso em relação ao tema como um todo se moveria a uma velocidade jamais vista. Contudo, para fazer isso, seria necessário deixar para trás alguns dos alvos mais estimados pelo universo corporativo: renunciar ao resultado financeiro a qualquer custo, aceitar reduzir as margens, repensar formas de produção, estabelecer novos critérios para a seleção de matéria prima, diminuir os bônus daqueles que estão no topo. O mundo corporativo ainda não abraçou completamente o triplo bottom line, o que me leva a crer que a sustentabilidade genuína vai demorar um tempo para ter o espaço que realmente deveria.
 
CanalRh - Se pudéssemos falar em uma liderança sustentável qual seriam suas características e responsabilidades?
Judy: Com todo o respeito, acredito que essa questão é parte do problema. Ela reflete a tendência de adicionar a palavra “sustentabilidade” a outra palavra ou termo de forma que nos faça acreditar que temos algo totalmente novo à nossa frente. Eu tenho alguns pensamentos sobre os modelos de lideranças que existem e as marcas pelos quais são reconhecidos. Para mim, liderança não é algo que você faz, mas uma postura que você tem dentro de você e que envolve um senso de responsabilidade pessoal. Liderança é essencialmente um ato de serviço. Esse tipo de liderança não é baseado no que você sabe sobre as ideias do outro, mas na sua habilidade de gerar ideias e respostas para situações que os seus recursos não permitem. Portanto, está mais relacionado ao quão bem você se conhece.

Fonte: CanalRh


quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

O DIA DA RPPN

Em setembro de 2007 Chris teve a idéia: Porque não criarmos o Dia das RPPN?

Era 21 de setembro de 2007, data que é comemorada o Dia da Árvore.
E lançamos aqui no blog o desafio de criarmos uma data especial comemorativa para as Reservas Particulares, um "Dia Nacional das RPPN"!

E assim foi! Logo a  mobilização começou e depois de um amplo debate capitaneado pelo presidente da Confederação Nacional de RPPN, Rodrigo Castro, foi decidido que a melhor data comemorativa seria 31 de janeiro, pois neste dia no ano de 1990 foi assinado o Decreto de criação dessa importante e fundamental categoria de Unidade de Conservação.

Com a providencial ajuda da Dra. Sonia Wiedman - conhecida como a "Mãe das RPPNs" - a proposta foi encaminhada ao Congresso Nacional. E em fevereiro desse ano o Deputado Eunício Oliveira apresentou o Projeto de Lei.

Ontem, dia 08 de dezembro, o relator Deputado Reginaldo Lopes deu seu parecer amplamente favorável à aprovação da Lei criando O Dia Nacional das RPPN!

Uma singela e significativa homenagem a todos que acreditam na necessidade de protegermos em caráter perpétuo áreas naturais e que agora também faz parte da história do calendário ambiental brasileiro.

VIVA AS RPPNs!


Leia abaixo o relatório na íntegra:


COMISSÃO DE EDUCAÇÃO E CULTURA

PROJETO DE LEI Nº 6.863, DE 2010

Institui a data de 31 de janeiro como Dia Nacional das Reservas Particulares do Patrimônio Natural- RPPN.

Autor: Deputado EUNÍCIO OLIVEIRA
Relator: Deputado REGINALDO LOPES

I - RELATÓRIO

O projeto de lei em análise, de autoria do Deputado Eunício Oliveira, objetiva instituir o Dia Nacional das Reservas Particulares do Patrimônio Natural- RPPN, a ser comemorado na data de 31 de janeiro, em alusão ao primeiro decreto que criou as referidas unidades de conservação (Decreto nº 98.914, de 31 de janeiro de 1990), como forma de conscientizar toda a sociedade sobre a importância da conservação e preservação ambiental em áreas de propriedade particular.

Segundo a legislação vigente sobre a matéria em questão, “Reserva Particular do Patrimônio Natural- RPPN é área de domínio privado a ser especialmente protegida, por iniciativa de seu proprietário, mediante reconhecimento do Poder Público, por ser considerada de relevante importância pela sua biodiversidade, ou pelo seu aspecto paisagístico, ou ainda por suas características ambientais que justifiquem ações de recuperação” (art. 1º do Decreto nº 1.922, de 5 de junho de 1996).

A tramitação dá-se conforme o art. 24, inciso II do Regimento Interno desta Casa, sendo conclusiva a apreciação por parte da Comissão de Educação e Cultura (CEC). Cumpridos os procedimentos e esgotados os prazos regimentais, não foram recebidas emendas ao Projeto. Cabe-nos, agora, por designação da Presidência da CEC, a elaboração do parecer, onde nos manifestaremos acerca do mérito educativo e cultural da proposição.

É o Relatório.

II - VOTO DO RELATOR

A instituição de datas comemorativas, atribuição dessa Comissão, tem como objetivo básico promover o resgate de nossa memória como instrumento de afirmação da cidadania e de valorização da identidade nacional. Existem as mais variadas datas cívicas no calendário de efemérides nacionais. Umas objetivam prestar homenagem a personagens ilustres de nossa História, outras pretendem promover o reconhecimento da sociedade a determinada categoria profissional e há aquelas que objetivam desenvolver a conscientização da população acerca de uma dada realidade social.

A presente proposição, ao instituir o Dia Nacional das Reservas Particulares do Patrimônio Natural- RPPNs, enquadra-se na última categoria, pois pretende promover uma maior conscientização da população acerca da necessidade de se preservar esse importante bem natural, criado por legislação específica.

Trata-se do Decreto nº 1.922, de 5 de junho de 1996, que melhor definiu essa importante unidade de conservação e que substituiu o Decreto pioneiro (Decreto nº 98.914, de 31 de janeiro de 1990) e da Lei nº 9.985, de 18 de julho de 2000, que regulamentou o dispositivo constitucional assente no art. 225 de nossa Carta Magna e instituiu o Sistema Nacional de Unidades de Conservação, no qual se incluem as Reservas Particulares do Patrimônio Natural- RPPNs.

Embora já tenhamos no calendário das efemérides nacionais uma data já consagrada ao desenvolvimento de uma consciência ambiental (Dia do Meio Ambiente- 05 de junho), reforçamos a opinião do autor dessa proposição de que “celebrar o marco legal de criação das RPPNs, no dia 31 de janeiro de cada ano, é um imperativo não só pelo importante
papel que elas desempenham no cenário ambiental brasileiro como também é uma busca de novas formas de divulgação e incentivo para que
outros proprietários conheçam e participem deste mecanismo de conservação já consolidado no Brasil”.

Diante do exposto, manifestamo-nos pela aprovação do PL nº 6.863, de 2010.

Sala da Comissão, em de de 2010.

Deputado REGINALDO LOPES

Relator

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

PITACOS DAS LONTRAS

Lontras na cachoeira da divisa entre as cidades de Angelina e Rancho Queimado. Bem na hora do clique programado caiu uma gostosa chuva de verão.

ENTREVISTA QUE CONCEDEMOS AO SITE RPPN WEB DO INSTITUTO CHICO MENDES:

Como você conheceu as RPPN?
Assistindo um programa de tv que falava sobre a proteção da biodiversidade. Foi daí que nasceu a vontade de vendermos nossa casa em Floripa, comprarmos uma área preservada e transformá-la em RPPN.

Ao criar a RPPN, quais eram seus principais objetivos?
Contribuirmos para a preservação do meio ambiente e com as gerações futuras. Fazermos nossa parte, mesmo sabendo que é uma gota no oceano, para que nossos filhos e herdeiros do planeta Fernanda e Tom possam ter a oportunidade de uma proximidade maior com a natureza.

Quais foram os incentivos que levaram você a criar uma RPPN?
A convicção de ser uma proteção prevista em Lei, em caráter perpétuo.

São desenvolvidas atividades econômicas na sua RPPN? Quais?
É sabido que toda Unidade de Conservação precisa ter seu Plano de Manejo para nortear suas atividades. O nosso Plano de Manejo acaba de ser aprovado pelo Instituto Chico Mendes e a meta é a partir de agora buscar recursos para sua implementação, assim como para a construção de uma sede e das primeiras benfeitorias na área. No momento, a única receita proveniente da RPPN Rio das Lontras é externa, com a venda de camisetas feitas com tecido ecológico, de garrafas pet recicladas e estampada com a já famosa logomarca criada e desenhada pelo genial cartunista e escritor Ziraldo.

...vale citar uma famosa frase da Dra. Sonia Wiedmann: “É muito mais fácil encontrar Deus numa RPPN do que num templo erguido pelo homem...”

Que atividades você gostaria de realizar em sua RPPN?
Educação ambiental consideramos algo essencial. Temos uma paixão especial por pesquisas, que especialmente nos motiva muito.

Sua RPPN possui plano de manejo?
Sim, o realizamos em 2009. Foi devidamente aprovado e aguardamos para os próximos dias a publicação no Diário Oficial da União. É a primeira RPPN de Santa Catarina com Plano de Manejo. Aliás, segundo informações do Instituto Chico Mendes, apenas três RPPNs da Mata Atlântica já tiveram seus Planos de Manejo aprovados depois da criação do Roteiro Metodológico. Então, cremos, é algo para comemorarmos com entusiasmo.

Existe algum levantamento ou estudo realizado em sua RPPN? Quais?
Realizamos estudos da fauna: biota aquática; ictiofauna; herptofauna; avifauna e mastofauna.
Na área da vegetação foi feito o Inventário Florístico e Florestal.
E ainda foi pesquisado o sócio-econômico da região para a caracterização da área do entorno.
Também houve levantamento dos aspectos históricos e culturais, hidrografia, geologia, etc.

A sua RPPN recebe apoio de alguma instituição? Como você conseguiu tal apoio?
Para o Plano de Manejo concorremos e obtivemos apoio do Programa de Incentivo às RPPNs da Mata Atlântica (da ONG Aliança para Conservação da Mata Atlântica, uma parceria entre as ONGs Conservação Internacional, Fundação SOS Mata Atlântica e The Nature Conservancy). Também batalhamos e conseguimos firmar parcerias e cooperação técnica com as empresas Prosul e Tigrinus Equipamentos para Pesquisa e ainda com o Parque Nacional da Serra do Itajaí e com a Universidade do Vale do Itajaí – UNIVALI.
Tem que ser insistente, ter qualidade e embasamento nos projetos. Em se tratando da importância da criação de uma RPPN, um Patrimônio Natural que gera inúmeros benefícios para a sociedade, deveria haver mais facilidade aos proprietários. A atuação voluntária e a garra dos proprietários de RPPNs não podem ser justificativas para caminharem solitários, sem ajuda do estado e da iniciativa privada, ficando por sua própria conta – e risco!

“No dia 21 de setembro de 2007, Dia da Árvore, lançamos no blog da RPPN Rio das Lontras a idéia da criação do Dia da RPPN!”

Que tipo de apoio você gostaria de receber para garantir a implementação e manutenção de sua RPPN?
Muito provavelmente o Brasil terá a milésima RPPN ainda em 2010. Para esse universo multifacetado, de áreas protegidas por iniciativa de proprietários distintos, cada um com sua história própria, recursos e intenções, nos mais diversos biomas e características regionais, é necessário haver muito, mas muito mais mecanismos de apoio.
Obviamente o ideal é que esse apoio case com os objetivos da RPPN e que a fonte tenha a consciência da real necessidade das áreas protegidas, das ações que garantam um planeta mais justo e equilibrado, social e ambientalmente.
Precisa haver mais e melhores mecanismos de apoio às RPPNs, menos burocracia, menos cobrança e mais facilidade de acesso aos recursos.
E como diz a própria pergunta, garantir a implementação e manutenção da RPPN.

Qual a principal dificuldade em manter a sua RPPN?
Levando-se em conta que a RPPN é uma “pessoa física” e não uma instituição jurídica, é muito complicado buscar recursos. A RPPN não sendo empresa e não tendo uma ONG atuando em conjunto, tem que tirar leite de pedra para sobreviver. É desejável que a RPPN, no nosso entender, deva ter a opção de ser uma instituição mais eficiente e independente e assim caminhar com as próprias pernas.
Um problema muito comum as RPPNs e que também nos atinge é a manutenção da estrada de acesso para a RPPN, um caso sério! A prefeitura promete faz anos arrumá-la e já gastamos uma pequena fortuna em sua manutenção. E atualmente só se chega com um carro 4x4 e olhe lá!
Por isso a importância da RPPN ser cada vez mais forte como instituição, para que as prefeituras sejam verdadeiras parceiras e tenham a noção da significância de ter uma RPPN em seu território. Uma empresa que se instala no município vai gerar empregos e renda até quando ela existir ou se mudar dali. Por sua vez, uma RPPN é para sempre!
Vale citar aos prefeitos uma frase sempre falada pela presidenciável Marina Silva: “...que entendam que o Meio Ambiente não pode ser visto como algo separado das demais atividades!”.

Quais as principais ameaças à integridade da RPPN? Na sua opinião, porque isso ocorre?
Vários: O projeto de seis Pequenas Centrais Hidrelétricas (PCHs) na nossa bacia hidrográfica, sendo que um deles ameaça secar todo o trecho de rio que passa pela nossa RPPN, comprometendo mais de 85 metros de quedas e a cachoeira que é uma das nossas maiores belezas cênicas e que certamente influencia toda a dinâmica do ecossistema local, criando um micro-clima e lar das Lontras, nosso animal símbolo.
Há também a atual “febre” entre os colonos da região – conhecida historicamente como a “primeira colônia alemã de Santa Catarina” – a construção de enormes Granjas de frangos para corte. Mas o “resumo da ópera” é a total falta de uma consciência ecológica da maior parte da sociedade, gerando um comportamento irresponsável, consumidor, predador, com desmatamentos, uso indiscriminado de agrotóxicos, caça, poluição, políticas equivocadas e de cunho imediatista.
A fiscalização ineficiente e o não cumprimento das Leis é algo que compromete muito. Temos na maior parte das vezes em pensar nos nossos problemas e mais ainda no que acontece a nossa volta. A natureza não se restringe à área da RPPN. Acabamos tendo que nos mobilizar por ações que, em tese, deveria ser feita pelo Poder Público. Muitas vezes o caminho é recorrer sempre à última instância, o Ministério Público.

Você criaria outra RPPN? Porque?
Acreditamos que sim (risadas). Certamente de maneira mais tranqüila por sabermos os caminhos a serem percorridos, já que depois que a picada foi aberta fica mais fácil seguir a trilha. E vale citar uma já famosa frase da Dra. Sonia Wiedmann, que foi Procuradora do Ibama por 32 anos e é conhecida como a “Mãe das RPPNs”: “É muito mais fácil encontrar Deus numa RPPN do que num templo erguido pelo homem...”

“...como sempre diz o Beto Mesquita: “RPPN é uma só!””

Você atua em alguma entidade ou associação ligada as RPPN?
Muitos pensam que a “marca” RPPN Rio das Lontras é uma ONG. Mandam até currículos pedindo emprego. Mas não, somos pessoa física. E só!

Alguma observação que gostaria de comentar?
No dia 21 de setembro de 2007, Dia da Árvore, lançamos no blog da RPPN Rio das Lontras a idéia da criação do "Dia da RPPN"! O tema foi colocado em pauta novamente, tomara logo possamos dar esse grande passo, que vai ser um marco para o movimento.
O objetivo é que a data comemorativa possa representar todo o esforço empregado por todas as pessoas - na sua maioria heróis anônimos - que se dedicam à causa das Reservas Particulares e na busca da preservação da biodiversidade e de um planeta minimamente mais equilibrado. E ainda uma forma de divulgação e fortalecimento institucional das RPPNs.
Também vai ser interessante ter uma logomarca própria, um design que crie uma identificação imediata das RPPNs, sejam as criadas na esfera federal, estadual ou municipal – pois, como sempre diz o sensato ambientalista Beto Mesquita: “RPPN é uma só!”.
Quanto mais conhecido for o nome RPPN, mais portas serão abertas! A iniciativa privada e as Instituições Públicas - em especial as Prefeituras Municipais - poderão ser mais conscientes da importância de uma Unidade de Conservação no município e terem mais cumplicidade, que sejam parceiras fieis, cooperadoras íntimas e comprometidas com a RPPN e com a questão ambiental. O nome RPPN vai ficar mais em evidência e isso é bom e desejável.
Outro projeto que torcermos para ser implantado no Brasil é o “Herdeiros do Planeta”, um lindo programa de conscientização das futuras gerações, um melhor rumo para a nau humana.
Para terminar, citamos o maestro maior Tom Jobim: “...escuta o mato crescer”!

O que você achou sobre a implantação do site?
Uma bela e necessária iniciativa para divulgar, informar e incentivar a criação de novas RPPNs nos mais variados biomas Brasil afora. RPPN não é para todos, tem que ter um perfil próprio para isso. Quanto mais disponibilizar informações, melhor será!
Longa vida ao site, que seja tão perpétuo quanto as RPPNs!


segunda-feira, 5 de outubro de 2009

MASCOTE OLIMPÍADA 2016



No programa Fantástico, da Rede Globo o artista plástico Vik Muniz estudou as imagens olímpicas. Ele destacou o sol e criou uma marca para os Jogos do Rio. Já o cartunista Ziraldo desenhou uma menina, que seria a mascote de 2016.

Polêmicas a vista: Os puritanos e fariseus de plantão já estão reclamando da menina de biquini feita pelo genial Ziraldo.





domingo, 29 de junho de 2008

Artista dinamarquês faz cachoeiras artificiais


Quando adolescente um dos meus programas preferidos era sair com amigos procurando novas cachoeiras nos diversos rios que desciam a Serra da Mantiqueira, em Pindamonhangaba, onde cresci.

Muitas vezes caminhávamos pelos rios, já que não havia como andar pelas margens, escalando, enfrentando a correnteza em busca de lugares novos.

As PCHs (Pequenas Centrais Hidrelétricas) estão tornando as cachoeiras um artigo raro em nossos rios. Só em Santa Catarina existem nada mais, nada menos que 230 projetos de PCHs. 33 delas já foram aprovadas, as restantes aguardam autorização da Fundação Estadual de Meio Ambiente e da ANA (Agência Estadual de Águas).

Seis desses projetos são na bacia do Rio Cubatão, que faz parte da maior Unidade de Conservação de SC, o Parque Estadual do Tabuleiro e também da RPPN Rio das Lontras. O projeto da PCH mais alta é bem em cima da nossa RPPN, no rio Caldas do Norte, ou Forquilhas.

Agora um artista dinamarquês criou cascatas artificiais em Nova Iorque. Talvez logo precisemos desse artifício para lembrarmos das nossas...




Cascatas nova-iorquinas


A grande atração do verão nova-orquino neste ano são as águas. Um artista dinamarquês fez brotar quatro gigantescas cascatas no coração de Manhattan.

O rio percorre Manhattan de uma ponta a outra. O East River passa pelo centro financeiro de Nova York.

Mas as águas do East River não correm mais como antes. Em quatro pontos, caem do céu: cortinas gigantescas de água de até 36 metros de altura. Parece miragem.

Um sistema hidráulico bombeia a água até o alto. As cascatas descem por 270 toneladas de aço. A energia para acionar as bombas vem do vento.

A idéia do autor do projeto foi chamar a atenção para os espaços públicos, a natureza. É como se as cascatas gritassem para os moradores e turistas: vejam, há muito mais em Nova Iorque, além de prédios gigantescos, trabalho, shows e compras.

"O homem precisa entender como se relaciona com a natureza", diz o artista escandinavo Olafur Eliasson.

Olafur é famoso por criar projetos monumentais. Esse custou US$ 15,5 milhões, a maior parte veio de empresas privadas.

O prefeito de Nova Iorque já está fazendo as contas de quanto a cidade vai faturar com os novos pontos turísticos.

Barcos vão levar, de graça, turistas para ver de perto as cascatas. Hotéis de Nova Iorque estão lançando pacotes: “vá a Nova Iorque e veja as cascatas do East River”.

O artista só quer que vejam a natureza como uma construção. Na ponte do Brooklyn ou no céu de Manhattan.



Fonte: Jornal Hoje


terça-feira, 17 de junho de 2008

Em 2050 seremos todos vegetarianos?

QUEM É
Jornalista especializado em economia, tecnologia e meio ambiente. Tem 54 anos

O QUE FEZ
Colaborou com a revista Harper’s Magazine e com os jornais Los Angeles Times, The Washington Post e The Guardian (de Londres), entre outros

O QUE PUBLICOU
The End of Oil (O Fim do Petróleo, 2004);
The End of Food (O Fim da Comida, 2008)



"Em 2050, seremos todos vegetarianos"


Comer menos carne é o único meio de alimentar 10 bilhões de humanos, diz o autor de "O Fim da Comida"
Peter Moon


No Ensaio Sobre O Princípio Da População, publicado em 1798, o inglês Thomas Malthus fez uma afirmação alarmante. Como a população humana crescia em progressão geométrica e a produção de alimentos em progressão aritmética, no longo prazo o saldo desse descompasso seriam a fome e o aumento da mortalidade, ajustando o tamanho da população à oferta de alimento. Em 1800, havia 1 bilhão de humanos. Hoje, somos 6,6 bilhões. A produção agrícola superou a explosão populacional. Malthus estava errado? Para o jornalista americano Paul Roberts, de 54 anos, talvez não. A hora de Malthus pode ter chegado. Em The End of Food (O Fim da Comida, editora Houghton Mifflin), Roberts prevê que, até 2050, a demanda por comida ultrapassará a oferta. Um primeiro alerta seria a atual explosão do preço dos alimentos.
A tonelada de arroz passou de US$ 400 para US$ 1.000 em cinco meses. No Brasil, o feijão subiu 168,44% em 12 meses. A culpa, para os analistas, é de chineses e indianos, que estão ganhando mais e comendo mais. Em 2030, a China importará 200 milhões de toneladas de grãos, ou seja, todo o excedente exportável mundial. O que sobrará para os países pobres? Se nada for feito, a fome.



ENTREVISTA - PAUL ROBERTS



ÉPOCA – Malthus estava certo?
Paul Roberts – Após 200 anos, é cada vez mais difícil dizer “não” a essa pergunta. Continuamos desenvolvendo novas tecnologias para produzir mais comida, mas enfrentamos novas restrições que os fazendeiros do passado não tinham. Historicamente, a forma de aumentar a produção era expandir a área plantada. Isso é cada vez mais difícil. A maioria das terras aráveis do planeta já é usada e a maior parte do que resta são as últimas florestas. É o caso do Brasil, onde as novas áreas de plantio são obtidas à custa da derrubada de florestas.

ÉPOCA – É hora de outra Revolução Verde?
Roberts – A Primeira Revolução Verde, que transformou a agricultura entre os anos 40 e 60, multiplicou a produção de alimentos graças ao uso de fertilizantes e ao desenvolvimento de novas sementes. Ainda é possível aumentar a produtividade usando os transgênicos. Mas essa tecnologia tem seus limites. Não podemos também esquecer que o preço da energia está subindo e que a agricultura moderna foi pensada no tempo em que o barril de petróleo custava US$ 20. Caso o preço se estabilize entre US$ 125 e US$ 200, o sistema atual não se sustenta.

ÉPOCA – O que fazer?
Roberts – Há três grandes desafios para criar uma Segunda Revolução Verde. O primeiro é o aumento do preço do gás natural, o principal insumo na produção de nitrogênio sintético, que por sua vez é o maior insumo dos fertilizantes. A maior parte do excedente agrícola atual se deve à disponibilidade de nitrogênio barato. Se o preço dos fertilizantes se mantiver elevado, alimentar daqui a 50 anos outros 4 bilhões de pessoas, além dos 6,6 bilhões atuais, será um tremendo desafio. É preciso alternativas para produzir novos fertilizantes.

ÉPOCA – O segundo desafio é...
Roberts – A falta d’água. Para isso não existe alternativa. Não há continente onde não falte água. Cada país responde ao desafio de forma diferente. A China está substituindo a produção de grãos, que usa irrigação maciça, pela de frutas e verduras, que consome menos água. Em 2007, importou 30 milhões de toneladas de soja, boa parte oriunda do Brasil. Isso significa que a China está importando de vocês sua água. Está ocorrendo uma mudança no “mercado virtual” de água. Por algum tempo, isso deve contrabalançar a escassez. Mas, no fim das contas, não existe água suficiente no mundo para atender ao aumento projetado na demanda de alimentos.

ÉPOCA – E o terceiro?
Roberts – O último é o maior de todos: as mudanças climáticas. Elas vão dificultar o aumento na produção de comida e acentuar a escassez de água. A alteração do clima também será um desafio para que grandes exportadores, como os Estados Unidos e o Canadá, consigam elevar sua produção. Os desafios são complexos e as respostas para eles também. Será preciso reduzir o uso de energia e de água na agricultura, ao mesmo tempo que se elevam a eficiência e a produtividade. Porém, isso não será o bastante. Seremos obrigados a comer menos.

ÉPOCA – A Terra pode alimentar 2,5 bilhões de bocas com uma dieta ocidental, rica em carne, ou 20 bilhões de vegetarianos. Mas somos 6,6 bilhões...
Roberts – A pecuária e a avicultura consomem grande parte da produção de grãos. Tome o exemplo dos Estados Unidos, com um consumo anual per capita de 100 quilos de carne, comparado ao da Índia, com 15 quilos. É preciso elevar o consumo da Índia e desencorajar o consumo nos Estados Unidos e na Europa, para tentar atingir uma média global de consumo mais justa e sustentável.

ÉPOCA – Isso não é utopia?
Roberts – É preciso reduzir o consumo de carne. A questão é como fazê-lo. Nos Estados Unidos não se toca no assunto. Achamos que comer carne é um direito eterno. Seu consumo é considerado um índice de prosperidade – apesar dos problemas de saúde, como doenças cardíacas, que seu consumo acarreta.

ÉPOCA – No Brasil, é a mesma coisa.
Roberts – O Brasil está se desenvolvendo, e a lógica pressupõe que num país bem-sucedido come-se tanta carne quanto se deseja. Para inverter essa lógica, é preciso um líder corajoso e habilidoso. Essa não é uma prioridade dos candidatos à Presidência dos Estados Unidos. Cedo ou tarde, essa discussão terá de ser atacada.

"Como dizer a 1,3 bilhão de chineses que eles devem comer menos
carne, se isso tem sido um objetivo humano por milhares de anos?"


ÉPOCA – Barack Obama e John McCain têm opinião a respeito?
Roberts – Não sei. Não é uma questão que eles levantariam na campanha. Não soaria como algo patriótico.

ÉPOCA – O aumento do preço da comida ameaça elevar em 100 milhões o total de 862 milhões de famintos no planeta. Mas há 1 bilhão de pessoas com sobrepeso. O problema da humanidade é a fome ou o diabetes?
Roberts – Ambos são problemas. Se fosse forçado a escolher, priorizaria a subnutrição, pois ela mata as pessoas muito mais cedo, e sua solução contribuiria para a estabilidade do clima. Dito isso, se fracassarmos em lidar com a questão da obesidade, no longo prazo pagaremos um enorme preço na forma de despesas médicas. Por 200 mil anos, a espécie humana teve sua dieta restrita pela disponibilidade ou não de alimento. A invenção da agricultura, há 10 mil anos, mudou esse padrão. A obesidade é conseqüência do acesso a uma alimentação farta e barata. Para manter uma dieta saudável, é preciso disciplina, e nós não fomos biologicamente projetados para controlar nossa gula.

ÉPOCA – O Brasil será o celeiro do mundo à custa da destruição da Amazônia?
Roberts – Apesar de conhecermos as conseqüências científicas e ambientais da rápida expansão da agricultura, somos incapazes de resistir à pressão política e econômica. Na imprensa econômica americana, o Brasil é retratado como uma história de sucesso. O país será uma superpotência na produção de alimentos. No entanto, quando olhamos as publicações científicas, o Brasil é retratado em termos muito negativos. A lógica gira em torno do fato de a população chinesa ganhar hoje o suficiente para comer carne, o que leva à destruição das florestas no Brasil. A questão fundamental é: como dizer a 1,3 bilhão de chineses que eles devem comer menos carne, se comer carne tem sido um objetivo humano por milhares de anos?

ÉPOCA – Seu livro anterior se chamava O Fim do Petróleo. O atual é O Fim da Comida. Qual será o próximo, o fim da água? O fim da natureza? O fim da esperança?
Roberts – (Risos.) Vou trabalhar num livro sobre as finanças globais, outro desastre. O mercado financeiro é a chave de tudo. Nada do que conversamos, como a conversão de florestas em área de cultivo no Brasil, pode acontecer sem a ajuda dos mercados financeiros. Eles estão em crise. São uma faca de dois gumes que é preciso entender melhor.

ÉPOCA – O senhor é otimista com o futuro?
Roberts – Acho que sou. Ao dissecar a questão da escassez de recursos, aprendi como as coisas podem se tornar ruins. Eu sei qual é o pior cenário possível se não alterarmos a rota na qual caminhamos. Com isso em mente, acredito que qualquer mudança será para melhor. É muito fácil ser pessimista, mas isso não faria o menor sentido. A humanidade sempre conviveu com a escassez. Essa é a condição humana.



Fonte: Revista Época

segunda-feira, 16 de junho de 2008

Coluna da Marina Silva na Folha




A Senadora Marina Silva agora escreve semanalmente na Folha de São Paulo.
Talvez agora, como ex-ministra do Meio Ambiente, ela possa ser mais enfática ainda em suas observações.
O texto abaixo foi publicado essa semana.


MARINA SILVA

Militantes da civilização


NA SEMANA PASSADA o Congresso brasileiro recebeu dois grandes homens: um bengalês e um indiano, ambos cidadãos do mundo. Muhammad Yunus, Prêmio Nobel da Paz de 2006, criador do Banco da Aldeia, que deu aos pobres microcrédito e oportunidade de gerar emprego e renda. Rajendra Pachauri, Nobel da Paz em 2007 como chefe do IPCC, o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas, que demonstrou a gravidade do aquecimento global e a urgência de medidas para controlar seus efeitos.

É paradoxal a singeleza com que trazem uma pororoca de desafios que a humanidade não pode banalizar nem deles fugir. Ao lado de seus temas específicos - pobreza e mudanças climáticas - Yunus e Pachauri são portadores do grande tema oculto de nosso tempo: a coragem, tanto para mudar quanto para manter o que tem que ser mantido.

A sociedade de consumo, amplamente vitoriosa, nos impõe uma derrota acachapante: o fatalismo, a crença de que o mundo é assim mesmo, atracado a um conceito de civilização assustador, cuja medida de avanço é o aumento da capacidade de consumir. Quanto trabalho humano e quanto em recursos naturais e energia são gastos para multiplicar consumo perdulário?

Não fosse nosso insustentável desejo de ter, essa força monumental poderia ser redirecionada para dar habitação digna, saúde, alimentação, educação e meio ambiente equilibrado para todos.

Fatalismo pode ser explicação plausível para tanta inércia diante do que podemos chamar de Consenso dos Insensatos, o conluio de poderes para colocar interesses pequenos sempre à frente quando se trata de combater os impactos da máquina de produzir "civilização" descartável, risco ambiental e exclusão social.

Yunus e Pachauri são pessoas simples, discretas. Ambos se dedicam a levar o extraordinário para o dia-a-dia. Lembram que há espaço para a contribuição de todos, de onde saem as grandes mudanças.

Mostram a conexão inexorável dessa nossa encruzilhada civilizatória: não há soluções isoladas. Os instrumentos são econômicos, tecnológicos, sociais, mas eles serão inócuos sem um redirecionamento de processos e de demandas. Isso implica decisões pessoais e coletivas, culturais e espirituais, éticas e até estéticas. O caminho que leva ao abismo nos dá sinalizações para a volta. Há que fazer escolhas.

Hoje, para quem quiser se engajar, não é mais possível ser só ambientalista, ou só militante de causas sociais, políticas, culturais. É preciso se engajar em tudo, ser militante da civilização.

contatomarinasilva@uol.com.br